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A corydora é provavelmente o peixe mais mal comprado do aquarismo brasileiro. Não porque seja difícil, ela é fácil, mas porque quase todo mundo leva uma ou duas para casa acreditando em duas coisas erradas: que ela é um faxineiro que vive de restos e que peixe de fundo pode ficar sozinho.
As duas ideias saem caro. Corydora é peixe de cardume, come comida de verdade e vive dez anos quando bem tratada. Este guia é sobre fazer isso direito.
O que é a corydora?
Corydora é o nome popular dos peixes do gênero Corydoras, da família Callichthyidae, nativos da América do Sul. São mais de 170 espécies descritas, e várias delas vêm de bacias brasileiras.
Características que definem o bicho:
- Tamanho pequeno, entre 4 cm e 7 cm na maioria das espécies de aquarismo
- Corpo blindado por placas ósseas, o que explica o nome popular em inglês, armored catfish
- Barbilhões ao redor da boca, que funcionam como sensores para procurar comida no substrato
- Respiração intestinal acessória, que a faz subir à superfície para engolir ar de vez em quando, comportamento normal e não sinal de falta de oxigênio
- Vida longa, de 5 a 10 anos com bom manejo, bem acima da média dos peixes de aquário comunitário
É um peixe diurno e ativo, que passa o dia peneirando o fundo com os barbilhões. Quando está em grupo suficiente, esse comportamento vira um dos mais divertidos de observar num aquário. Quando está sozinha, a corydora fica escondida e parada, e muita gente acha que comprou um peixe apático.
Quantas corydoras manter juntas?
No mínimo seis da mesma espécie. Esse número não é preciosismo de fórum, é o limiar em que o comportamento do animal muda.
Corydora é peixe de cardume por natureza. Em grupo pequeno, ela se esconde, come menos e fica mais suscetível a doença. A partir de seis, o grupo passa a forragear junto, explora o aquário inteiro e se alimenta com muito mais segurança.
Duas regras importam tanto quanto o número:
- Mesma espécie. Seis corydoras de seis espécies diferentes não formam um cardume. Elas se reconhecem por padrão e comportamento. Prefira seis Corydoras paleatus a uma de cada tipo da loja.
- Espaço de fundo, não volume. Como vivem no chão, o que limita é a área do fundo do aquário, não a altura. Um aquário de 60 litros comprido acomoda melhor que um de 60 litros alto.
Para um grupo de seis a oito corydoras de porte pequeno, 60 litros é um bom começo. Vale checar a conta geral em quantos peixes por litro antes de somar outras espécies.
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Qual o substrato certo para corydora?
Areia fina e inerte é a melhor escolha, e o motivo é mais interessante do que o que costuma ser dito por aí.
A corydora se alimenta peneirando: enche a boca de substrato, filtra as partículas de comida e expele o resto pelas brânquias. Esse comportamento só acontece de verdade em grão fino. Em cascalho grosso ela não consegue peneirar e passa a catar apenas o que está por cima, o que reduz muito a área de alimentação dela.
Uma areia fina inerte resolve os dois lados: permite o comportamento natural e não altera os parâmetros da água, o que importa porque a corydora quer pH estável entre 6,5 e 7,5. Substrato fértil de aquário plantado também funciona, desde que o grão seja fino.
Uma camada de 2 cm a 3 cm basta. Camada grossa de areia compacta e cria bolsões sem oxigênio no fundo, que é justamente o que você não quer num aquário com peixe que vive enfiando a cara ali.

Por que o barbilhão da corydora desgasta?
Aqui mora o mito mais repetido sobre essa espécie, e vale corrigir com cuidado, porque a versão popular leva muita gente a resolver o problema errado.
A explicação que circula é que cascalho pontiagudo corta os barbilhões. Nos fóruns especializados, onde o assunto foi discutido à exaustão com casos acompanhados, essa explicação foi em grande parte derrubada: aparecem relatos de erosão severa em aquários com areia fina e macia, e relatos de corydoras com barbilhões perfeitos em cascalho por anos.
O que aparece de forma consistente nos casos de erosão é outra coisa: substrato sujo. Matéria orgânica acumulada entre os grãos gera uma carga bacteriana alta bem na altura em que a corydora enfia a boca o dia inteiro. A erosão do barbilhão é, na prática, uma infecção crônica de contato, não um corte mecânico.
Isso muda a solução por completo:
- Sifonar o fundo com regularidade é a medida mais eficaz, mais até que trocar o substrato
- Não superalimentar, porque sobra de ração no fundo vira exatamente a matéria orgânica do problema
- Manter amônia e nitrito em zero, já que brânquia e barbilhão irritados abrem porta para infecção
- Areia fina continua sendo melhor, mas pelo comportamento alimentar, não porque o cascalho corta
Barbilhão desgastado, quando a causa é removida, costuma regenerar em algumas semanas.
O fundo que eu não sifonava
Em 2008 eu montei meu primeiro aquário, um 60 litros, e cometi o erro clássico de comprar peixe demais de uma vez. Entre os que vieram naquele dia estavam quatro corydoras, que a loja me vendeu com a frase que todo mundo já ouviu: que elas iam limpar o fundo para mim.
Acreditei. E como acreditei, nunca sifonei aquele aquário direito. Achava que estaria roubando comida delas.
Uns meses depois notei que os barbilhões de duas delas tinham praticamente sumido. Ficaram uns cotocos, e uma parou de peneirar a areia, ficava parada num canto. Na época eu culpei o cascalho, que era grosso mesmo, e me convenci de que tinha comprado o substrato errado.
Só que o cascalho estava lá desde o primeiro dia e o problema apareceu meses depois. O que tinha mudado nesse meio tempo não era o substrato, era a sujeira acumulada nele. Eu alimentava demais, nunca sifonava, e o fundo daquele aquário era um tapete de restos entre as pedras. As corydoras passavam o dia com a boca dentro daquilo.
Quando comecei a sifonar o fundo a cada troca de água e cortei a quantidade de ração pela metade, os barbilhões das duas voltaram a crescer em cerca de um mês. Nenhuma delas morreu. Eu tinha passado meses tentando resolver com produto um problema que era de manutenção.
A frase da loja continua sendo o pior conselho que já me deram sobre peixe. Corydora não limpa aquário. Ela mora no lugar do aquário que mais precisa de limpeza, o que é bem diferente.
Como alimentar corydora do jeito certo?
Corydora é onívora e precisa de comida própria, servida onde ela vive. Ração em flocos que boia é comida dos peixes de meia-água, e sobra pouca coisa quando chega ao fundo.
O básico:
- Pastilha ou ração que afunda como base da dieta
- Alimentar à noite, com a luz apagada, é o truque que mais funciona em aquário comunitário: os peixes de cima já se recolheram e a corydora come em paz
- Vegetal levemente escaldado, como abobrinha, de vez em quando
- Alimento congelado ou vivo, como larva de mosquito e artêmia, uma ou duas vezes por semana
A quantidade certa é a que desaparece em poucos minutos. Sobra no fundo é a origem do problema de barbilhão descrito acima, então superalimentar corydora é literalmente contraproducente.
Corydora convive com camarão?
Convive bem, e é uma das melhores companhias de fundo para aquário de camarão adulto. A corydora não tem boca nem comportamento de predador: ela peneira, não caça.
A ressalva é com filhote. Camarão recém-nascido é minúsculo e fica justamente no fundo, entre os grãos. Uma corydora peneirando não persegue o filhote, mas pode engolir algum sem querer, junto com o substrato. Em aquário de reprodução com neocaridina, isso reduz um pouco o rendimento das ninhadas, sem ameaçar a colônia.
Vale conferir a lista completa em peixes que convivem com camarão.

Quais espécies de corydora escolher primeiro?
| Espécie | Tamanho | Por que começar por ela |
|---|---|---|
| Corydoras paleatus | 6 cm | A mais resistente e a mais fácil de achar. Tolera faixa ampla de temperatura |
| Corydoras aeneus | 7 cm | A clássica bronze, muito ativa e barata |
| Corydoras sterbai | 6 cm | Aguenta bem temperatura mais alta, boa para aquário com discus |
| Corydoras habrosus | 2,5 cm | A anã, única indicada para aquário nano a partir de 30 litros |
Para o primeiro grupo, paleatus ou aeneus. São as mais tolerantes a erro de iniciante e as que mais aparecem em loja com boa procedência.
Perguntas frequentes sobre corydora
Corydora limpa o aquário mesmo?
Não. Esse é o maior mito sobre a espécie. Ela procura comida no fundo, mas não come fezes, não raspa alga do vidro e não substitui a sifonagem. Corydora que depende de sobra de ração passa fome e definha devagar.
Por que a corydora sobe até a superfície e volta correndo?
É comportamento normal. A corydora tem respiração intestinal acessória e engole ar na superfície de tempos em tempos. Vira sinal de alerta só quando ela faz isso o tempo todo, o que aponta falta de oxigênio ou problema nas brânquias.
Posso ter só duas ou três corydoras?
Sobrevivem, mas não é o recomendado. Abaixo de seis elas ficam escondidas, comem menos e adoecem mais. Se o orçamento apertar, compre menos espécies e mais indivíduos da mesma, em vez de um grupo pequeno e variado.
Qual a temperatura ideal para corydora?
Entre 22 °C e 26 °C para a maioria das espécies. A sterbai é exceção e tolera bem até 28 °C. Evite manter corydora comum em aquário mantido acima de 28 °C por muito tempo, porque encurta a vida do animal.
Corydora dá certo em aquário plantado?
Muito bem. Ela não come planta e não desenterra mudas enraizadas, ao contrário de outros peixes de fundo. O único cuidado é o substrato: prefira grão fino, o que também é bom para as plantas.
Como saber se a corydora é macho ou fêmea?
Vendo de cima, a fêmea é visivelmente mais larga e arredondada, principalmente quando está com ovas. O macho é mais esguio e costuma ser um pouco menor. A diferença fica clara a partir dos 8 meses de idade.
Corydora é um peixe fácil desde que você respeite três coisas: grupo de seis ou mais da mesma espécie, areia fina no fundo e comida que afunda, servida à noite. Nada disso é caro nem trabalhoso.
E se algum vendedor disser que ela vai limpar o aquário para você, agradeça e sifone o fundo do mesmo jeito. Os barbilhões dela agradecem mais.
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